Quando o ensino superior deixa de fazer sentido

5 minutos de leitura. Por Beatriz Alves.

Durante anos, o percurso escolar dito “normal” incluía uma licenciatura e, quem sabe, um mestrado. A ilusão de que eram habilitações absolutamente necessárias para a entrada no mercado e trabalho foi vendida a gerações de estudantes, que, quer sentissem desejo ou não de ir para o ensino superior, o faziam, com a intenção de terem um futuro melhor. Mas e se isto já não fizer sentido?


É verdade que, em tempos não muito distantes, uma licenciatura era um factor diferenciador e que poderia realmente garantir postos de trabalho mais bem remunerados. Foi a partir daí que se criou uma ilusão e toda a gente seguiu por essa via. Mas não existem trabalhos com remuneração acima da média para todos. Num tempo em que o mais comum é ter-se no mínimo licenciatura, torna-se mais difícil aceder a estes postos, uma vez que a concorrência é maior. Assim, uma licenciatura atual pouca diferenciação dá ao seu portador, e mesmo os mestrados começam já a ser muito comuns, acabando-se assim com a diferenciação que estes ainda traziam. No fundo, uma licenciatura acaba muitas vezes por ser um passaporte para o desemprego.


Cada vez mais pessoas se apercebem deste fenómeno, e, portanto, não é de admirar que cada vez mais alunos escolham não prosseguir com a licenciatura, abandonando-a muitos no primeiro ano. Os motivos podem ser variados: para além da perceção de que uma licenciatura não é diferenciadora, os encargos financeiros com esta são também causa de desistência de muitos alunos. Muitas famílias simplesmente não conseguem pagar estes encargos mensais, de propinas e de habitação na cidade da universidade, pelo que a desistência é muitas vezes a solução encontrada.


Para contrariar esta tendência, o Estado conta com as bolsas de estudo, que podem ser atribuídas a estudantes vindos de famílias carenciadas. E sabe-se que estas resultariam, porque a experiência foi já feita antes. Mas o investimento do Estado no Ensino, e neste caso, no Ensino Superior em particular, é no mínimo errático, o que leva a situações de descontentamento, em que nãos e chegam a todas as pessoas que efetivamente precisam dessa ajuda financeira.


A promoção destas bolsas de estudo também não é muito frequente, passando esses apoios ao lado de muitos estudantes por falta de conhecimentos sobre a existência da mesma. Aos que realmente fazem requerimento da bolsa, são pedidos inúmeros documentos, passando-se por um processo burocrático que pode acabar com a atribuição de um valor no mínimo absurdo, que pode nem chegar para pagar as propinas (isto quando a bolsa é realmente atribuída).


Outra razão que pode explicar o elevado número de abandono do ensino superior passa pelas licenciaturas em si, que, na sua grande maioria, se encontram desatualizadas e pouco voltadas para o mercado laboral da atualidade. Os cursos são maioritariamente técnicos, não se colocando ênfase na prática da teoria, e não adaptando o ensino às ferramentas que têm disponíveis na atualidade. O próprio currículo em si encontra-se com frequência desatualizado, usando-se exemplos e programas que já nãos e encontram em uso no mundo do trabalho. Isto é transversal a todos os cursos, de licenciaturas em áreas de humanidades a cursos como programação. De nada serve a um estudante de informática aprender quase exclusivamente uma linguagem que não seja procurada por empregadores, ou que esteja desatualizada.


A situação curricular chega a um ponto ainda mais alarmante quando se conseguem encontrar professores, espalhados pelas universidades do país, que não possuem um mínimo de conhecimentos sobre a disciplina que estão a lecionar, e que, quando questionados pelos alunos acerca de um tópico, se limitem a papaguear o que se encontra nos PowerPoint ou manuais, sem verdadeiramente tirar dúvidas ou ensinar algo aos alunos. Afinal, para se lecionar uma disciplina de tradução de inglês, por exemplo, não basta saber um mínimo de inglês; são necessários conhecimentos de técnicas de tradução, softwares mais utilizados, etc. Não basta pegar num texto simples e mandar as pessoas traduzirem conforme queiram, sem se verificar se o resultado está bom ou não.


Esta desatualização em relação à realidade laboral acaba por se tornar frustrante e é outra das razões que leva depois ao desemprego, uma vez que os jovens licenciados não terão experiência nas áreas mais procuradas na sua formação. Este descontentamento é aparente para os jovens em situação de ingressar no ensino superior, que, ao verem que licenciatura não é garantia de emprego, que não terão a formação adequada e que, possivelmente, nem terão dinheiro para terminar o curso, optam por não seguir essa via. Dos que realmente ingressam numa licenciatura, muitos desistem ao final do primeiro ano, por motivos financeiros ou por completa desadequação do curso ao mercado laboral.


É tentador atribuir à pandemia as culpas pelo aumento das desistências neste último ano letivo, mas este é um problema que vem já de trás, não sendo novo. A solução passaria pelo investimento em ajudas financeiras a estudantes, mas também pela atualização dos cursos em si, a nível curricular e dos softwares utilizados para lecionar. Enquanto isso não acontecer, as desistências do ensino superior irão continuar a ser manchete de jornal todos os anos.


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