O que somos e como (não) nos vemos

5 minutos de leitura.

O Myers-Briggs test é um famoso questionário de 93 perguntas, que tem como resultado a atribuição de um de 16 tipos personalidades possíveis. Muitas questões se tem levantado sobre a fiabilidade e relevância deste teste e, nesse sentido, a verdade é que certos psicólogos clínicos, psiquiatras e alguns profissionais que trabalham diariamente para entender e desmistificar a mente humana desvalorizam e questionam a fiabilidade e precisão deste questionário. Em 1921, inclusive, Carl Jung, um dos mais influentes psicólogos de sempre, conjecturou que a personalidade dos seres humanos, na verdade, toca simultaneamente diferentes tipos de personalidades. Dentro delas, existem os que procuram, os que julgam, os que privilegiam o sensorial em detrimento da intuição, os que pensam mais e os que sentem mais, entre outros. Mesmo aí, o próprio chegou à conclusão de que a maior parte dos indivíduos não se conseguem integrar totalmente nessas categorias, no sentido em que às vezes as pessoas tendem a ser mais extrovertidas em certas situações e introvertidas noutras. Aliás, o próprio escreveu que “cada indivíduo é uma excepção à regra”.

Duas décadas depois, duas pessoas sem uma formação efectiva nestas áreas, Catherine Briggs e a sua filha, Isabel Briggs-Myers, decidiram pegar nestas ideias e transformá-las num indicador de tipo de personalidade. Elas pegaram nos tipos já explorados por Jung, mas ao longo do tempo foram modificando as terminologias, de forma que, no final do teste, o resultado atribuído fosse correspondente a um, e um só, tipo de personalidade. Desta forma, segundo este teste, uma pessoa não é vista como um alguém simultaneamente introvertido e extrovertido, dependendo das situações em que está inserida. Este teste não permite essa dualidade, o que levanta algumas questões, uma vez que as pessoas não funcionam exactamente assim e, portanto, estes resultados podem deixar um pouco a dúvida em matéria de identificação. Um estudo, inclusive, concluiu que cerca de 50% dos que fizeram o teste duas vezes chegaram a um resultado diferente, em apenas 5 semanas de diferença.

Além disso – e esta constatação é algo preocupante, pois também ela demonstra, de certa forma, como se encontra o nosso mercado de trabalho de hoje –, muitas empresas hoje usam este teste para separar empregados de potenciais despedimentos e, ainda, para os alocar nas funções e responsabilidades que vão mais de encontro com o resultado do teste. No entanto, vários estudos mostraram, precisamente, que este questionário não é muito eficiente a prever o sucesso das pessoas em diferentes empregos.

Desta forma, uma questão que se coloca neste momento é: sendo assim, por que razão Myers-Briggs test é assim tão popular? Certamente terá que ver com o facto de este teste mostrar, acima de tudo, resultados positivos – uma pessoa, ao responder ao questionário, não será confrontada com um resultado que diga que é egoísta, preguiçosa ou má pessoa.

Esta admiração pelo questionário também pode ser explicada pelo facto de as pessoas encaixarem e adorarem categorias e generalizações. E, uma vez que as descrições destes tipos de personalidade são um pouco vagas, fica algo difícil questioná-las ou argumentar contra elas. Isto corresponde ao efeito Forer, que é uma técnica de persuasão, usada no ramo da astrologia, que visa convencer as pessoas de que as avaliações relativamente às suas personalidades são feitas exclusivamente para elas – gerando nelas uma espécie de exagerada aceitação –, mas que, na verdade, têm uma essência algo vaga e genérica, o suficiente para se aplicarem a uma quantidade significativa de pessoas.

Dentro desta reflexão, importa ainda analisar este teste da seguinte forma: ainda que seja interessante verificar de que forma esta "avaliação psicológica" nos vê, temos sempre de ter em conta que, como qualquer outra ferramenta, ela avalia somente as preferências em causa – preferências essas que não são, de todo, absolutas, uma vez que todos nós podemos revelar outro tipo de preferências conforme as situações e a nossa própria maturidade. Além disso, convêm ter em atenção que preferências não são capacidades, isto é, não definem com exatidão aquilo que podemos ou não fazer, apenas têm a capacidade para determinar se ficamos mais ou menos confortáveis em diferentes situações, ou se gastamos mais ou menos energia em diferentes contextos. Desta forma, e para imortalizar bem esta ideia, o teste em causa é, somente, um indicador, e nunca poderá ser visto como um verdadeiro diagnóstico.

Por outro lado, é interessante enfatizar também que o nosso tipo de personalidade é só um em muitos aspectos que nos definem. Além dele, o ambiente em que crescemos, todas as nossas experiências de vida e a essência dos nossos valores e do nosso carácter, entre outros, também são factores de máxima importância para analisar, com profundidade, quem somos e como somos. Assim, há que evitar a 100% a rotulação das pessoas e a criação de estereótipos, até mesmo as definições radicais de carácter e toda a avaliação e previsão que se faz, tendo em conta as pequenas evidências que temos ao nosso dispor, relativamente a avaliar ou não o futuro sucesso e potencial de uma pessoa. E tudo isto porque o ser humano é, felizmente, um ser multidimensional, repleto de infinitas, e bonitas, nuances.

Neste sentido, espiritualmente falando, o que contemos em nós vai muito para além de qualquer tentativa de rotular a nossa individualidade, e deste modo o teste Myers-Briggs afigura-se como algo redutor, tendo em conta a nossa amplitude. A questão relativamente a este teste não se trata de encararmos o seu resultado como uma verdade fundamental para nós, mas sim como um passaporte e uma ferramenta para questionarmos cada vez mais quem somos, o que guardamos dentro de nós e que muitas vezes não conseguimos ler, nem transmitir. Este teste, portanto, se mal direccionado, pode tornar-se, de facto, totalmente irrelevante para o sentimento de identificação do qual necessitamos para crescer e evoluir humanamente. Mesmo que seja altamente atractivo para nós atribuirmos – a nós e aos outros – um tipo de personalidade, a verdade é que as personalidades humanas são bastante complicadas, voláteis e difíceis de discriminar, como um todo. Desta forma, o Myers-Briggs test assume, essencialmente, a função de pôr em perspectiva e não o de cientificar, exactamente, aquilo que realmente somos.

De facto, é interessante pensar, apesar disso, em qual é a razão pela qual as pessoas verdadeiramente fazem e procuram o teste, ou pela qual o teste é verdadeiramente popular. Porventura, este teste acaba por trazer uma espécie de fantasia de que pode, efectivamente, ajudar as pessoas que não sabem muito bem o que são ou que se sentem perdidas a encontrar respostas. As pessoas, quando não conseguem obter resposta imediata às suas questões interiores, por vezes acabam por se agarrar a possíveis soluções "fáceis", mas o verdadeiro papel que este teste pode, certamente, trazer é o de permitir que nós abramos os nossos horizontes, criemos novas perspectivas sobre nós próprios e que encurtemos a distância que nos separa do nosso encontro e fluxo.

Vale a pena pensar nisto.

Sou como tu me vês.

Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania,

Depende de quando e como tu me vês passar.

— Clarice Lispector

Blog posts recentes

Quando o ensino superior deixa de

fazer sentido

Como não ter objectivos

Afinal porque é que os livros são avaliados?

Categorias

Regista-te na comunidade

O que é que prometemos?

Nada. Não prometemos sonhos que se tornem pesadelos. Não queremos criar idealizações de fora para dentro que não têm impacto de dentro para fora. Entra e descobre.

Sapiente / Sem direitos reservados / Made with principles. Desde 2020.

info@sapiente.pt