Millennials: a nova geração Burnout

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Com a agitação do dia-a-dia e com toda a pressão que há, hoje, por parte da sociedade para que tenhamos sucesso — seja o que isso for —, a verdade é que os chamados Millennials, isto é, as pessoas que atingiram a sua idade adulta perto do ano 2000, vivem um período bastante sensível e delicado. Com as contrariedades que atravessam, o que é facto é que há quem defenda que se tornaram na nova geração Burnout, ou seja, mentalmente esgotados, sem fluxo, nem fruição genuína da sua vida. No fundo, são pessoas que, apesar de darem tudo de si diariamente, ainda se sentem cobrados ao final do dia. E isso é verdadeiramente desgastante.

Efectivamente, toda esta "condição" é espoletada por uma total incompreensão por parte dos outros da missão profunda que a pessoa está a representar. Ao longo da nossa vida, ao nos ser colocada ainda mais pressão, quando o que apenas precisamos é de uma justa aprovação ou de um sincero encorajamento, há todo um acumular de tensão que, por vezes, não é canalizada adequadamente — às vezes, nem canalizada é, de todo, e isso é bastante perigoso. No fundo, uma pessoa alcança o estado de burnout quando esgota, quase por completo, todos os seus recursos internos, sem se conseguir libertar da necessidade de prosseguir o seu trabalho até à exaustão — quer seja por pressões externas, quer seja por falta de consciência da profundidade de esforço que tem dado de si.

E num mundo cada vez mais optimizado tecnologicamente, as exigências externas para que estejamos a ser o máximo de produtivos a todo o momento faz com que se perca um pouco a noção daquilo que é realmente importante para o mundo, para a sociedade e, claro, para nós mesmos: porque, se vamos priorizar o facto de fazermos muitas coisas — independentemente da sua importância intrínseca —, ao invés de fazermos aquilo que tem de ser feito devidamente, primando pela qualidade, estaremos a entrar numa espiral de mediocridade que não nos vai levar a lado nenhum; estamos, no fundo, a criar a ilusão de que estamos a fazer o melhor possível, quando na verdade estamos sempre em esforço, a fazer o máximo possível, mas sem qualquer necessidade.

Além disso, definitivamente, o tempo que a tecnologia poupa de trabalho não tem sido convertido em qualidade de vida. Aliás, com a pandemia, tudo ficou ainda mais difícil de lidar: afinal, através do investimento (necessário) no trabalho remoto, todas estas cobranças — que até então não eram tão significativas — expandiram-se ao ponto do trabalhador sentir a necessidade, por pressões externas, de estar "omnipresente" em diversas frentes. E tudo isto foi adensado porque não tivemos uma clara fase de adaptação a esta nova realidade, tendo caído praticamente de pára-quedas. E é precisamente este um dos pontos que melhor poderá explicar e resumir a facilidade com que os millennials acabam por sofrer de um evidente esgotamento mental: tem, sobretudo, que ver com a falta de capacidade de adaptação, isto é, de se reinventarem perante novas e mais exigentes situações; isto porque há muitas ideias pré-concebidas nesta fase da vida e, essencialmente, a ilusão de que existem fórmulas que toda a gente deve seguir para ter sucesso — para estar em fluxo. A verdade é que esta ideia não podia estar mais errada: és tu que tens de definir os teus próprios métodos, o teu próprio caminho, as tuas escolhas.

Posto isto, vem a descoberto um aspecto importantíssimo para lidar com toda esta realidade sensível dos nossos dias: a necessidade e importância de colocarmos limites nas solicitações (profissionais ou outras) que nos fazem. Como na pandemia estas exigências aumentaram, para compensar as perdas, as empresas cobraram e estão a cobrar demasiado aos seus funcionários — e o burnout nasce, precisamente, a partir desse excesso de pressão. É preciso, portanto, colocarmos limites. Nem sempre é fácil, mas acima de tudo temos que ter consciência quando estamos a ferir ferozmente a nossa estabilidade (emocional, mental e física) ao prolongar uma fase desgastante. De tal forma que o esgotamento profissional se tornou, infelizmente, um padrão dos tempos modernos. De facto, a síndrome de burnout resulta de contexto de trabalho ferozes, onde na actualidade são cada vez mais competitivos e concorrenciais, e nos quais os millennials assumem uma peso cada vez mais crescente, uma vez que representam a grande maioria dos trabalhadores em actividade a nível mundial.

Decerto, há vários estudos — e estas conclusão é muito interessante — que demonstram que há profissões com maior risco e incidência de casos desta magnitude, nomeadamente, médicos, enfermeiros e professores e, curiosamente, os profissionais mais perfeccionistas e focados no seu trabalho são os que estão mais expostos ao risco de uma saúde mental deficitária. Por outro lado, a maior fragilidade financeira proveniente de vínculos contratuais de ordem precária e que proporcionam salários baixos e até mesmo uma profunda e preocupante ausência de visão de futuro, em matéria de progressão e estabilidade profissional contribuem, e que de maneira, para o adensar desta problemática.

Desta forma, toda esta realidade facilitou aquilo que é, no fundo, a nossa exploração, pois toleramos o emprego em que estamos inseridos porque, muitas vezes, não temos outra opção, ou seja, não nos demitimos, não procuramos outra alternativa. E tudo isto cria um círculo vicioso.

Assim, de facto, os millenialls são, infelizmente, cada vez mais uma geração marcada por um esgotamento mental profundo, e que, sem uma mudança de mentalidade, sem uma consciência daquilo que precisamos para preservar a nossa entropia e fluxo, dificilmente será evitado um crescimento cada vez maior desta problemática.

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