Afinal, porque é que os alunos são avaliados?

5 minutos de leitura. Por Beatriz Alves.

Imagina esta situação clássica, vivida por todos nós durante a infância e adolescência: vais ter um teste. A ideia até nos pode dar calafrios hoje, porque muitas vezes significava horas e horas de estudo, a tentar memorizar o máximo de matéria possível para o momento da avaliação, que no fundo acabava por decidir o nosso sucesso ou insucesso (ou assim pensávamos). E a história repete-se a cada geração, desde que o sistema de ensino público foi criado. Tenso, não?

Mas afinal, por que razão é que os alunos são avaliados? Ainda hoje se usam diversos argumentos para justificar este ato, e é por eles que vamos começar. Em termos práticos, existe um currículo a ser seguido por todos os professores e que deve ser ensinado aos alunos, por mais irrealista que esse currículo seja (e por mais irrealista que seja a ideia de que toda a gente aprende da mesma forma). Assim, as avaliações permitem que os professores avaliem aquilo que os alunos efetivamente “absorveram”, recompensando quem tenha mais respostas corretas com notas mais altas, e transmitindo a ideia de que estas pessoas é que prestaram atenção às aulas, e que as restantes não o fizeram.

As avaliações seriam um guia para se perceber o que estava ou não a funcionar num determinado programa curricular, abrindo assim caminho a mudanças neste de modo a que este fosse mais explicativo e percetível para todos. Como sabemos, isto raramente acontece, pelo menos não nos sistemas educativos de hoje. A culpa raramente está no currículo, pelo menos para quem de direito, e sim nos alunos, por não conseguirem entender a matéria dada.

Mas vamos analisar estes argumentos pelo que são. Não se pode negar que, em teoria, as avaliações são úteis para monitorizar o desempenho de um determinado currículo. Mas será que são tão eficazes como se pensam? A verdade é que cada indivíduo é diferente, e aprende de forma diferente, em diferentes ritmos. Para algumas pessoas, aulas em que apenas se lê a matéria são suficientes. Para outras, é necessária alguma ajuda visual ou até mesmo prática, de modo a que possam compreender melhor o que está a ser explicado. Assim, no fundo, a escola atual e a avaliação estão desenhadas para aquelas pessoas que conseguem assimilar matéria apenas ouvindo a informação dada pelo professor ou, no máximo, lendo o manual. E, por isso, não são de todo representativas do sucesso ou insucesso escolar do aluno, e muito menos da capacidade intelectual deste.

No fundo, o que se consegue com o atual sistema de avaliação é premiar aqueles que conseguem memorizar melhor uma informação. Não se fomenta a imaginação e o espírito de raciocínio lógico; em vez disso, a matéria é apresentada de forma factual aos alunos, que não devem fazer perguntas e apenas devem tomar aquilo que é dito como sendo o correto, sem terem necessidade de pensar por si mesmos acerca do assunto. O importante é memorizar tudo para o próximo teste, de maneira a ter uma boa nota. Depois disso, pode-se “virar a página”, esquecer a matéria dada (ou grande parte dela) e memorizar novos conteúdos, e assim sucessivamente ao longo de todo o percurso escolar.

A divisão entre bons e maus alunos pode ser também bastante nociva para os indivíduos, havendo muitas vezes uma separação em função das notas escolares. Crianças perfeitamente capazes e inteligentes são muitas vezes apelidadas de “burras” por outras, apenas porque não conseguiram assimilar a informação da maneira que as escolas acham mais correta: estando sentada durante horas a fio a ouvir um professor a falar, muitas vezes de forma monótona. Qualquer forma de distração é punida e serve como justificação para as más notas nas avaliações oficiais.

Este comportamento acaba por se refletir na sociedade mais tarde, já em adultos, porque estas crianças foram moldadas para ser e agir de determinada maneira, tendo muitas delas baseado a sua personalidade ou a forma como se vêm com base no sucesso escolar (ou falta deste). Criam-se humanos em série desde a infância, premiando-se as características que a sociedade julga serem boas e desejáveis (como ser-se obediente e quieto), e onde quem não se conforma é posto de parte e ignorado. Tudo isto não acontece de forma propriamente consciente. Não deve haver neuma instância superior a decidir que as escolas vão funcionar assim, porque é assim que se criam adultos conformados e obedientes. Este é antes um processo natural, em que a sociedade impõe os seus conceitos sobre cada nova geração de forma inconsciente, fruto não só da tradição, mas também das mudanças que vão ocorrendo ao longo dos tempos, como alterações económicas ou o surgimento de novas tecnologias.

Cada vez mais, no entanto, se recorrem a métodos “alternativos” de ensino, em que se adequa os conteúdos às necessidades de cada indivíduo, seja fornecendo-lhe diversos materiais em diferentes meios, para que o aluno tenha mais estímulos e consiga assim assimilar melhor o que lhe é apresentado, ou através de autênticas lições individuais e personalizadas. Estes métodos de ensino não são novos: em tempos antigos, eram os mais populares, especialmente no caso das lições personalizadas, porque quem recebia educação eram os nobres, sendo que cada professor tinha poucas crianças para ensinar (ou, muitas vezes, apenas uma).

A tecnologia veio dar um novo fôlego a métodos de ensino não-convencionais. Entre aulas em vídeo, com recurso a efeitos visuais, fotografias de época e gráficos explicativos, torna-se muito mais fácil para cada um adquirir novos conhecimentos ao seu ritmo e da maneira que achar mais adequada para si. Isto permite um afastamento do atual sistema industrializado de aprendizagem, onde se espera que todos sejamos iguais e que todos aprendam a informação da mesma forma.



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