A essência do nosso sistema de educação

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No nosso sistema de educação, as crianças são preparadas para o mundo real, mas ele está a mudar muito rápido e constantemente.

Na verdade, as escolas pelo mundo fora não mudaram muito nos seus métodos nos últimos séculos. Muitos líderes do mundo inteiro, inclusive, estão de acordo que o nosso sistema educacional actual, que foi idealizado na era industrial, está, ainda que possivelmente sem intenção, a criar “máquinas industriais”. Esta mentalidade de produção e controlo em massa, portanto, continua a subsistir nas escolas pelo mundo inteiro, sobretudo a nível europeu. Desde o começo da sua formação – e aqui reside, porventura, um dos erros mais fracturantes –, os estudantes são incutidos a, acima de tudo, seguir ordens e modelos/ideias pré-concebidas, não conseguindo aprender realmente a pensar e a desenvolver a sua criatividade/imaginação. Já dizia Einstein, “a imaginação é mais importante que o conhecimento. O conhecimento auxilia por fora, mas só o amor socorre por dentro. O conhecimento vem, mas a sabedoria tarda”.

E no nosso sistema actual de educação somos muito recompensados ao fazer aquilo que nos mandam, algo que vai precisamente na linha dos valores da era industrial, onde o sucesso dos trabalhadores (nas suas funções) dependia, acima de tudo, de seguir à risca as instruções que recebiam previamente. Mas a grande questão que realmente se levanta neste sentido é: quão longe no mundo real (do trabalho e não só) uma pessoa consegue ir ao tentar seguir instruções?

Os valores da era moderna, por seu turno, valorizam quem é criativo, comunicativo, objectivo e profundo nas suas ideias e, acima de tudo, prático e polivalente no trabalho em equipa. Mas a verdade é que os nossos estudantes não têm grande oportunidade de desenvolver estas soft skills num sistema baseado nos valores da era industrial.

Outro dos pontos mais flagrantes nesta reflexão tem que ver com a ligeira falta de autonomia e, por conseguinte, por uma intenção de controlo, que limita consideravelmente o espaço/amplitude da evolução educacional dos alunos como um todo. A questão é: no mundo do trabalho, sobretudo em imposições altamente relevantes para as empresas, nós temos de gerir – e muito bem – o nosso tempo e de, inclusive, tomar as nossas próprias – e importantes, pois poderão afectar fortemente a dinâmica empresarial e o rumo dos acontecimentos – decisões (o que fazer e quando fazer). Mas o que se passa nas escolas vai, de certa forma, em divergência disto, em matéria de incentivo e cultivo intelectual. Assim, as escolas passam a mensagem – algo perigosa – para os estudantes de que eles não estão acima dos outros no controlo das suas próprias vidas.

Outra questão (porventura) deficitária no nosso sistema educacional actual tem que ver com a chamada “aprendizagem não-autêntica” (não-efectiva), no sentido em que alguma parte da aprendizagem que acontece nas escolas, hoje, é baseada em memorização e em mecânicas de repetição – e é, por isso, chamada de não-autêntica, pois não tem impacto (duradouro) a longo prazo. Além disso, a escola define todo um conjunto de conhecimentos/factos que todos os estudantes devem, de acordo com as suas normas, apre(e)nder. Desta forma, os testes escritos são a medida que conta na altura de classificar aptidões, conhecimentos e aprendizagens, revelando-se – tendo em conta toda a profundidade que o conhecimento e a aprendizagem, felizmente, oferecem – um pouco redutor, o que cria uma dinâmica pouco saudável para estudantes, pais e professores. No fundo, os estudantes estão incumbidos de memorizar uma série de factos cuja importância é ligeiramente questionável e que, ao fim e ao cabo, acabarão por ser esquecidos.

Por outro lado, e prossigo a reflexão com uma ideia algo sensível, no nosso sistema educacional actual não há grande espaço para paixões e gostos/interesses intrínsecos/pessoais. Sendo todo este sistema padronizado, cada aluno acaba por aprender a mesma coisa, ao mesmo tempo e da mesma maneira que os outros, e isto pressupõe afirmar que esta dinâmica – algo deficitária – contraria o que é ser-se humano, onde cada qual é único e diferente de todos os outros, à sua maneira e na sua autenticidade. Aliás, um dos factores mais predominantes para o nosso sentimento de preenchimento e realização (pessoal e profissional) tem precisamente que ver com encontrarmos e seguirmos a nossa paixão.

Parece não haver, portanto, grande espaço no sistema educacional corrente para reflectir sobre as perguntas mais importantes na vida de uma criança, nomeadamente: “em que é que serei (verdadeiramente) bom?”; “o que é que eu quero fazer na vida?”; “como é que consigo encaixar neste mundo?”. Este sistema parece não se importar muito com isso. Não é por acaso que temos, hoje em dia, alguns casos de pessoas talentosas que não foram bem-sucedidas na escola, neste sistema tradicional. Felizmente, tiveram a audácia e ousadia para superar essas dificuldades e para se tornarem naquilo que são hoje.

Noutra perspectiva, e retomando um pouco um dos tópicos anteriores, todos nós somos diferentes e distintos no que toca a ritmos da aprendizagem e, também, quanto às ferramentas e recursos que melhor se adaptam a nós para extrair conhecimento a partir daí. Por conseguinte, o facto de o nosso sistema educacional vigente não promover muito a interação entre alunos revela alguma desumanidade nos seus métodos. Posteriormente, graças à internet e aos media digitais, toda a informação do mundo está à distância de um simples clique. Desta forma, a tecnologia tornou possível que qualquer pessoa, no fundo, aprenda qualquer coisa – mas, por algum receio de perder o controlo, o sistema não investe o suficiente na amplitude destes incríveis recursos.

Assim, o nosso sistema educacional, por algumas destas razões, está um pouco fora de linha e pode ser visto como ineficiente. E, portanto, como queremos preparar os nossos estudantes para o mundo moderno, não há dúvidas de que existe alguma necessidade em reformular, nestes pontos, o nosso sistema de educação actual.

Todo o sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo.

—  Michel Foucault, A Ordem do Discurso

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